
Para a maioria dos brasileiros que vive nos Estados Unidos, voltar para o Brasil está fora de cogitação. Apesar das notícias falando de crise imobiliária, políticas migratórias rigorosas e queda do dólar, um número significativo de imigrantes não consegue se imaginar numa vida diferente da que conquistou na América. O principal motivo para continuar acreditando no sonho americano é um só: cidadania.
A housecleaner Helena Braga vive em Newark (NJ) e não pretende voltar tão cedo para Belo Horizonte, sua cidade natal. “Mesmo sendo ilegal, aqui a gente tem mais dignidade do que no Brasil”, diz. Helena vive no país há três anos e meio com seu marido e dois filhos de 11 e 15 anos. Ainda que se preocupe com o futuro das crianças, especialmente no que se refere à falta de acesso à universidade, a mineira tem esperanças de que as coisas se resolvam positivamente para os imigrantes. Ela tem uma teoria que sempre a motiva: “é aquela história do caos; estamos vivendo a pior fase, mas sei que chegará um momento em que tudo se resolverá favoravelmente aos imigrantes, afinal, somos nós que movimentamos a economia desse país”, afirma.
Assim como ela, muitos imigrantes pensam no futuro com otimismo. Os brasileiros consultados por nossa reportagem confirmam uma constatação feita pelo Pew Hispanic Center, num estudo realizado em julho deste ano. Segundo a pesquisa, mais de 60% dos imigrantes latino-americanos pretendem continuar vivendo nos Estados Unidos nos próximos anos. Para eles, apesar dos laços que mantêm com seus países de origem, o seu futuro e de toda sua família está em solo norte-americano.
Mesmo na crise, EUA têm mais vantagens que Brasil
Debora Beldowicz, moradora de Old Bridge (NJ), aponta a segurança, a facilidade de arrumar um emprego e a economia forte, como principais justificativas para continuar vivendo nos Estados Unidos. “Mesmo tendo dificuldades nos EUA, o Brasil tem uma crise econômica pior, que não justifica a volta”, opina. “Aqui, mesmo com a crise da economia, existem muitos empregos. Para quem realmente não tem medo de trabalhar, as oportunidades estão sempre disponíveis”.
Na opinião de Anselmo Alves, marketing da YesBrazil TV, os aspectos negativos da economia e da política norte-americana, que vieram à tona nos últimos meses, são compensados por outros valores que são oferecidos nos Estados Unidos e estão em falta no Brasil. “Houve uma tríplice combinação negativa nos últimos meses nos EUA que realmente minou a esperança dos que aqui estavam. A falta de perspectiva da abertura de uma lei de imigração, a queda do dólar e a crise imobiliária fizeram com que muitos tomassem a decisão de deixar o país”, diz. “Mas existem outros fatores que devem ser observados, como principalmente educação e segurança. Na minha cadeia de valores esses dois pontos são muito importantes e se justificam para tomar qualquer tipo de atitude”.
Morador de New Hampshire há três anos, ele considera que as crises existem, mas vêm e vão com o tempo. Por isso, não acha que voltar para o Brasil seja a solução para os problemas. “As crises são cíclicas e as decisões devem ser tomadas buscando o equilíbrio do composto emocional e racional”. Afinal, os Estados Unidos, diz ele, têm vários pontos de vantagem em relação ao Brasil: “segurança, educação e também a ausência de um escândalo semanal, como leite, senado, e tantos outros”, completa.
Marllus Gandrud, de Santa Barbara (CA), acha que a decisão de voltar para o Brasil é precipitada. E destaca: praticamente todos os aspectos da vida norte-americana são melhores do que a vida em território brasileiro. “Começando pelos planos de saúde e meios de transporte, que nem se compara ao Brasil”. Para ele, vale a pena esperar esse momento de incertezas passar e continuar a vida na América. “Se você tem um serviço fixo, o salário é ótimo, mesmo sendo de garçom ou faxineira. Conheço empregadas domésticas que andam de Porsche. Se você trabalha, você tem dinheiro, agora, se não trabalha, tem que voltar para o Brasil mesmo”, brinca.
Arthur Neto, há oito anos no país, vive em Atlanta (GA) e adotou os Estados Unidos como sua pátria principalmente devido aos seus filhos, que já estão completamente adaptados ao modo de vida americano. “Todos estão bem encaminhados, e completamente integrados à sociedade americana, inclusive tendo recebido prêmios e reconhecimento nas escolas e em atividades extra-curriculares. Voltar ao Brasil é impensável para meus filhos”, conta.
Em relação às notícias de tantos brasileiros fazendo as malas, Arthur destaca: voltar nem sempre é o melhor negócio. “Vejo muita gente retornando e se dando mal, pois o Brasil também não está fácil. Falta de emprego, falta de segurança, custo de vida, e outro fatores não facilitam o retorno e readaptação da pessoa ao país”, analisa.
Assim como todos os outros entrevistados, Neto aponta a educação e o respeito ao próximo como os maiores atrativos da vida nos Estados Unidos. “Educação, respeito ao próximo, limpeza urbana, escolas, acesso a atividades diferentes, contato com diferentes etnias, estabilidade financeira, segurança, policiamento, etc. Na minha opinião pessoal, apesar das dificuldades impostas pelo processo imigratório, ainda vele muito a pena viver nos Estados Unidos”, finaliza.
